“As pessoas não fazem as viagens, as viagens é que fazem as pessoas.” (John Steinbeck)

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Auschwitz I: a visita



“Em 27 de janeiro de 1945, o Exército Vermelho libertou Auschwitz, o maior e mais terrível campo de extermínio.”

Passaram apenas 74 anos. 74 anos... foi ontem! Já foi em 2011 que visitei este campo de concentração, e continua a ser um dos locais que mais me ficou na memória. E porque não devemos esquecer este passado tenebroso e tão, mas tão recente... aqui fica o registo escrito que fiz na altura. Quer queiramos quer não esta sombra faz parte da História, da "nossa História" e um dia quero que os meus filhos saibam o que se passou. Que saibam o que foi o Holocausto e que percebam a gravidade das leviandades e atrocidades que se viveram nestes campos. Não quero de todo que pensem que tudo não passou de um filme. Quero que distingam "A guerra das Estrelas" da "Lista de Schindler", por exemplo. 

Posto isto, em 2011, quando cheguei ao Campo de concentração de Auschwitz I, aquele cujo portão toda a gente reconhece de filmes e documentários, uma atmosfera pesada caiu sobre mim e sobre todos os visitantes. A verdade é que durante todo o caminho feito de Cracóvia até lá tudo me pareceu surreal... não havia uma única placa, uma indicação o que fosse que referisse "Auschwitz" ou outra qualquer coisa semelhante. O mini-bus seguia sim, placas que indicavam "Oświęcim". Vim a saber depois que os alemães durante a invasão da Polónia mandaram alterar todas as placas e nomes de praças, ruas, vilas, cidades, tudo,... para alemão. Assim "Oświęcim" é o nome da localidade onde se encontram os campos de concentração e "Auschwitz" é a sua tradução para alemão.

O "Arbeit macht Frei" ("O trabalho liberta" ou "Trabalho nos torna livres") portão. (Auschwitz I )    


Percebi também que todo este pedaço da história ainda tem um peso brutal no olhar dos polacos. A geração dos jovens de 20-30 anos é ainda a primeira geração complemente livre (depois da invasão dos alemães vieram os soviéticos) e muitos deles não conseguem falar sobre estes assuntos, têm dificuldade em visitar os campos (muitos deles nunca o fizeram) e todos os dias dão graças pela vida que têm hoje, muito diferente da dos seus pais e avós.

A visita ao campo de concentração de Auschwitz I, começou com um breve comentário da guia sobre o ambiente de respeito e silêncio que se deveria manter ao longo de toda a visita ao campo. A realidade é que estávamos num gigante cenário de horrores, cada recanto, cada pedaço de chão, cada pedra, cada parede, cada edifício, cada cerca,... estavam carregados de um peso brutal. Sentia-se o ambiente pesado em todo o lado. A guia que nos acompanhou (tal como todos os outros) além da intensa formação, tinha ligação de alguma forma direta ao holocausto. Ou seja, cada palavra, cada explicação era sentida quase como se tivesse a visualizar toda a tragédia enquanto nos relatava histórias. Os olhos enchiam-se de lágrimas facilmente. E toda a gente ouvia com muita atenção, entrava na história, engolia em seco, e deixava escapar lágrimas de compaixão por todos aqueles que ali sofreram. Tendo em conta a carga psicológica forte e intensa a que estes guias estão todos os dias sujeitos o tempo máximo que por lá permanecem é de 3-6 meses. Ou seja, não há ninguém que esteja ali por estar. Não há ninguém que "debite" as "histórias" por debitar. Todos estão ali porque algo os motiva. Todos estão porque têm histórias a contar. Não há ninguém que faça aquilo por fazer e que esteja lá como se tivesse num museu. Quanto ao tirar fotos, foi nos dito explicitamente que poderíamos tirar todas as fotos que quiséssemos. Que deveríamos divulgá-las para mostrar e não deixar esquecer a tragédia que ali aconteceu. Pediram-nos sim para não tirar fotos "à la turista" do tipo daquelas que se tira quando nos encontramos em frente à Torre Eiffel, por exemplo. Cheias de poses e "olhem-para-mim-aqui-debaixo-da-torre!" Ou seja, nada de fotos de poses tipo "olhem-eu-no-maior-cemitério-do-mundo". Fotos do campo, dos edifícios. Das condições degradantes, dos objetos sim. Fotos com poses não. Toda a gente do grupo onde eu ia inserida cumpriu.


Um fragmento da praça nominal, onde se realizavam as paradas, com o local preparado para um sargento responsável fazer a contagem das mortes diárias... Na parada era "normal" abater judeus aleatórios de forma a perderam a noção de segurança e ficassem desnorteados. Por mais que se esforçassem durante o dia para cumprir tudo, a aleatoriedade do fuzilamento na parada desconcertava-os. 

Cercas e vedações pelo campo... Alguns (muitos) judeus optaram por se desligar da vida nestas cercas. Diziam: "podem tirar-me tudo, menos a opção que tenho para terminar a minha vida quando e como eu quero"...

O campo de concentração de Auschwitz I não foi construído pelos alemães. Era digamos, que um quartel do exército local que foi ocupado pelos nazis. Estes fizeram dele um dos seus centros administrativos e aproveitaram parte das instalações para servir de campo de concentração. A determinada altura a capacidade deste e dos outros campos excedeu largamente a sua capacidade e o extermínio dos judeus não se estava a dar à velocidade que desejavam. Nessa altura foi mandado construir de propósito um campo denominado de "Auschwitz II–Birkenau" que tinha como principal missão o extermínio declarado de judeus sendo chamado de lugar para a "Solução final". Este campo situa-se a meia dúzia de quilómetros Auschwitz I e voltarei a falar dele num próximo post.


Wall of Death no pátio entre Bloco 11 (prisão - Bloco da morte e das tortura e o Bloco 10 (bloco onde onde as mulheres viviam, vítimas de experiências de esterilização ) onde as execuções por fuzilamento ocorreram...

O facto de o campo de concentração de Auschwitz I ser na sua origem um quartel, fez com que as condições em que viviam os judeus fossem ligeiramente melhores do que posteriormente as condições do campo "Auschwitz II–Birkenau". Custa-me imenso dizer que as condições eram bastante melhores, porque na verdade todos sofreram e não se consegue medir sofrimentos não é verdade? Mas a verdade é que quando falar do campo "Auschwitz II–Birkenau" e vos mostrar as fotos vão perceber a diferença. Esta diferença foi salientada ao longo da visita. Imaginem, portanto, um quartel, transformado em campo de concentração versus um campo construído de propósito para extermínio em massa de judeus.


Câmara de gás...


Crematório...


O edifício do Gabinete do Comando...


Não faltam também provas, milhares de provas, milhares de objetos que embarcam em si mesmos o terror que milhares viveram e sofreram. Objetos carregados de sentires. Objetos pesados, como pesada foi a história dos seus donos. Aos judeus, foi-lhes tirado tudo. Entravam no campo, e imediatamente eram despidos de tudo, desde os bens materiais até à sua dignidade. Era-lhes incutida uma falsa esperança sobre o facto de aquilo ser uma temporada de trabalho e que no final todos os seus pertences lhes seriam devolvidos. Com esta falsa esperança, milhares de judeus marcaram religiosamente os seus pertences com nomes e moradas. Pormenores que avivam a malvadez do que aconteceu. Que dão força a um sentimento escuro, pesado e macabro que envolve toda a triste história do holocausto.






Se pensarmos que os alemães cientes da aproximação dos Aliados, em determinado momento deitaram fogo aos fornos, aos pertences pessoais, ao próprio campo... numa tentativa de não deixar vestígios e "enganar" a História... e que mesmo depois disso se encontraram milhares e milhares de objetos pessoais, conseguimos ter uma pequena ideia do inferno que ali se viveu, e da quantidade de vidas que se perderam. Dói só de pensar.
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